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Professor Ronaldo Lavestein
Ampliar o olhar
Etapa 1

O que significa qualidade?

Na etapa anterior, a Cantina Horizonte mostrou uma coisa importante: um sistema pode abrir, responder aos cliques e ainda assim deixar dúvidas. Agora vamos ampliar o olhar. Qualidade não é apenas “não travar”.

Uma nova conversa na Cantina Horizonte

Depois das primeiras observações, a equipe faz alguns ajustes e pergunta: “Agora está bom?”

Antes de responder, imagine quatro situações diferentes. Em todas elas o sistema continua abrindo e aceitando pedidos.

Situação 1 · O resultado está certo, mas demora

O atendente finaliza um pedido. O valor está correto, mas a confirmação leva 15 segundos para aparecer.

O sistema funcionou? Sim. Essa demora seria aceitável no intervalo, com uma fila de alunos esperando?

Perceba a diferença: o resultado pode estar correto e, mesmo assim, a experiência ser ruim.

Situação 2 · O sistema percebe o problema, mas ninguém entende a mensagem

Um usuário digita uma quantidade inválida e recebe:

Erro 1047

O sistema percebeu que algo não está certo, mas não ajudou a pessoa a entender o que fazer.

Compare com:

A quantidade deve estar entre 1 e 10.

As duas mensagens podem nascer do mesmo problema técnico. Para o usuário, porém, a diferença é enorme.

Situação 3 · No computador está ótimo

No computador da cantina, os botões aparecem perfeitamente. No celular, o botão Finalizar pedido fica apertado, parte do conteúdo sai da tela e é preciso arrastar para os lados.

O sistema deixou de existir? Não. Mas ele continua adequado ao ambiente em que as pessoas realmente vão usá-lo?

Situação 4 · Ontem estava lá

No fim do dia, os pedidos aparecem normalmente. Na manhã seguinte, alguns sumiram.

Agora a pergunta fica ainda mais fácil:

Um sistema pode ser considerado de boa qualidade se não conseguimos confiar que ele manterá os dados registrados?

Qualidade é um conjunto de características

Esses exemplos mostram por que a palavra qualidade é maior do que “o cálculo deu certo”.

Quando avaliamos um software, podemos observar perguntas diferentes:

Ele faz o que precisa fazer?

Os cálculos, regras e funções entregam o resultado esperado?

Ele responde bem?

O tempo de resposta é adequado para a situação real?

As pessoas conseguem usar?

A interface e as mensagens ajudam, em vez de atrapalhar?

Podemos confiar nele?

O sistema mantém seu funcionamento e seus dados de forma consistente?

Convive com o ambiente?

Funciona onde precisa funcionar e conversa corretamente com outras partes?

Consegue evoluir?

Uma mudança pode ser feita sem transformar cada correção em um novo problema?

Você não precisa decorar uma lista agora. O objetivo é perceber que qualidade tem várias dimensões.

Existe uma referência internacional para organizar esse olhar

Quando profissionais precisam conversar sobre qualidade, ajuda ter uma linguagem comum.

Uma referência importante é a ISO/IEC 25010:2023.

Antes da sigla, o significado

ISO é o nome curto internacional da International Organization for Standardization, a Organização Internacional de Normalização.

IEC é a sigla de International Electrotechnical Commission, a Comissão Eletrotécnica Internacional.

A ISO/IEC 25010:2023 apresenta um modelo de qualidade de produto com nove características. Não vamos transformar essas características em uma lista para decorar. Vamos voltar a elas quando situações reais do módulo pedirem esse olhar.

O ponto principal por enquanto é simples:

Qualidade pode ser especificada, observada e avaliada por características — não apenas por uma impressão de que “parece bom”.

Mas qualidade não começa quando o sistema fica pronto

Imagine duas equipes.

Equipe A

Cada pessoa trabalha de um jeito. Testes são feitos quando sobra tempo. Decisões importantes ficam em mensagens soltas. Quando alguém sai do projeto, parte do conhecimento vai embora junto.

Equipe B

As regras importantes são registradas. Alterações têm histórico. Defeitos são acompanhados. Há revisões, testes e formas de verificar se o processo está melhorando.

Mesmo antes de olhar para o produto final, já existe uma diferença importante na forma de trabalhar.

Isso nos leva a outra ideia:

Qualidade também depende de como o software é produzido, acompanhado e melhorado.

Duas expressões que você pode encontrar no mercado

Em equipes de software, é comum aparecerem as expressões QA e QC. Vamos apresentá-las sem transformar isso em disputa de siglas.

QA · Quality Assurance

Garantia da Qualidade. Olha fortemente para processos e práticas que ajudam a prevenir problemas e produzir software de maneira mais controlada.

QC · Quality Control

Controle da Qualidade. Olha para o produto e para as evidências que ajudam a descobrir se ele atende ao esperado. Testar software é uma atividade importante dentro desse trabalho.

Na prática, nomes e responsabilidades variam entre empresas. Para nós, a mensagem essencial é esta: qualidade não começa no último teste.

E onde entram CMMI e MPS.BR?

Esses nomes aparecem na formação de Qualidade e Teste de Software porque ajudam a olhar para a capacidade e a melhoria dos processos de uma organização, e não apenas para uma tela ou uma função específica.

CMMI

Capability Maturity Model Integration, ou Modelo Integrado de Maturidade e Capacidade. É um modelo usado para apoiar melhoria de desempenho e de processos organizacionais. A linha atual é o CMMI V3.0.

MPS.BR

Melhoria de Processo do Software Brasileiro. É uma iniciativa brasileira coordenada pela Softex. Quando aparece MPS-SW, o SW indica a referência voltada a software. A versão de referência atual é o MPS-SW:2024.

Não vamos decorar níveis nem transformar esta etapa em um curso de modelos de maturidade. Por enquanto, guarde a diferença:

ISO/IEC 25010 nos ajuda a organizar características da qualidade do produto. CMMI e MPS.BR ajudam a olhar para a forma como a organização estrutura e melhora seus processos.

Vamos voltar à Cantina Horizonte

Leia cada situação e diga qual pergunta sobre qualidade ela provoca. Não precisa usar um nome técnico perfeito.

SituaçãoO que você perguntaria?
O total calculado está errado.O sistema faz corretamente aquilo que deveria fazer?
Finalizar um pedido leva 15 segundos.O tempo de resposta é adequado?
Uma mensagem mostra apenas “Erro 1047”.A pessoa consegue entender o que aconteceu e como agir?
No celular, parte da tela fica escondida.O sistema funciona adequadamente no ambiente esperado?
Pedidos desaparecem no dia seguinte.Podemos confiar que os dados serão mantidos?

Agora aparece uma pergunta que não dá para evitar

Volte ao experimento da quantidade zero da etapa anterior.

Você pode achar estranho comprar zero salgados. Mas imagine que o desenvolvedor responda:

“Ninguém me disse qual era a quantidade mínima.”

Então precisamos separar duas coisas:

o que uma pessoa fez durante o desenvolvimento e o comportamento que apareceu quando o sistema foi executado.

É nesse ponto que palavras como erro, defeito e falha deixam de ser sinônimos e começam a ajudar de verdade.

A seguir: erro, defeito, falha e teste

Vamos pegar problemas que você já viu na Cantina Horizonte e descobrir a diferença entre erro humano, defeito no software e falha observada durante o uso.

Antes de seguir

Você deve conseguir explicar, com suas próprias palavras:

  • por que “funciona” não é sinônimo de “tem qualidade”;
  • por que qualidade envolve tanto o produto quanto a forma de produzi-lo;
  • o que representam, em linhas gerais, ISO/IEC 25010, CMMI e MPS.BR;
  • por que testar é importante, mas não resume sozinho todo o trabalho de qualidade.